quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Biotecnologia e agricultura rumo à sustentabilidade


O conceito de biotecnologia tem sido utilizado de diversas formas. É possível, por exemplo. Conceitua-la a partir de suas características técnicas, do seu papel no desenvolvimento do conhecimento científico e tecnológico, ou de seu potencial para o desenvolvimento da economia. A biotecnologia, para Clark & Juma (1991), como também ser apresentada como um conjunto de ideias que serve como suporte a pesquisas em diferentes áreas de conhecimento. Enquanto conjunto de técnicas advindas de outras áreas, a biotecnologia não pode ser entendida como uma área autônoma do conhecimento, pois compreende uma gama de fundamentos: normas , valores, ética e ambientais. Para os autores a biotecnologia presume-se em um grande número de técnicas com potencial para causar impactos difusos ou sistêmicos na economia. A biotecnologia possui ainda um caráter bipolar, ou seja, de um lado provoca descontinuidade e por outro é acumulativa, no que adiciona ao estoque de conhecimento e recursos disponíveis. O problema maior encontrado na definição é que a utilização de qualquer um deles não nos fornece uma forma prática para a abordagem do assunto, uma vez que os trabalhos de pesquisa e de produção biotecnológica desenvolvida hoje no mundo inteiro utilizam-se das mais diversas técnicas da biologia. Portanto a classificação que nos parece mais adequada, presente em grande parte dos trabalhos acadêmicos, é o que envolve o termo biotecnologia dividido em três níveis de sofisticação tecnológico, de acordo com Sales (1987) em: tradicional, intermediária e de ponta.
A busca incessante por uma vida melhor tem levado o homem a enveredar pelo campo do conhecimento científico de forma uma forma ilimitada. A genética, após a descoberta de Mendel passou por transformações abruptas no decorrer das décadas. A engenharia genética vem ganhando um destaque dentro do campo da ciência, na economia e política. Isso tem acontecido em decorrência do enorme potencial de transformação nos mais diversos campos da humanidade. Os Organismos Geneticamente Modificados (OGMs), tem sido, nos últimos dias, palco de muitas especulações, equívocos e acertos. Os transgênicos, que na verdade são OGMs, tem aparecido com maior freqüência na vida de muitas pessoas nos mais distantes países do globo terrestre. Isso tem feito com que os pesquisadores se debrucem sobre os seus instrumentos de pesquisa para que possam produzir um conhecimento mais seguro e assim, apresentarem uma melhor aceitação.

Benefícios- como exemplos dos principais benefícios advindos da utilização dos transgênicos, tem-se:
 • Aumento da produtividade das colheitas- algo ainda bastante discutido pelas mais diversas camadas dos cientistas. Porém a análise de alguns casos mostra que os OGMs produzem mais que os convencionais. Um caso interessante a ser destacado é foi o trabalho desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), foi introduzido no feijão um gene do vírus responsável pelas viroses que prejudicavam, a lavoura levando a uma redução de 40% a 60% da produção. Dessa forma, pode-se obter até 100% da produção, dependendo do período do cultivo em que ocorre a infestação.
• Tolerância das plantas a condições adversas de solo e clima- O estresse provocado por défcit hídrico, alta concentração salina nos solos e baixas temperaturas vem sendo alvo de diversos estudos. Determinados genes foram introduzidos em plantas de soja e de trigo com a finalidade de obter maior tolerância ao défcit hídrico. Uma pesquisa da Universidade Federal de Viçosa (MG) mostrou que a expressão de um gene isolado da soja, em plantas transgênicas de fumo, foi capaz de conferir tolerância à falta de irrigação por até quatro semanas. O mesmo gene agora está sendo testado em leguminosas como soja, feijão. Isto pode constituir uma alternativa para o desenvolvimento da região Nordeste do Brasil.
 • Aumenta a produção de fármacos- A produção de fármacos em plantas e animais geneticamente modificados desponta como um campo imenso de fertilidade. “Nos Estados Unidos, existem no mercado ou em fase final de teste mais de 300 fármacos produzidos com o uso da engenharia genética. A grande maioria tem sido produzido em bactérias, leveduras ou células animais” (ARAGÃO, 2004, p.35). O objetivo principal da pesquisa é reduzir os custos da produção e aumentar a segurança do consumidor. A EMBRAPA analisa a síntese de proteínas de interesse farmacológico como o hormônio do crescimento humano, insulina, interferon-beta e o fator aintihemolítico (usados no tratamento da leucemia) dentre outros anticorpos produzidos por bactérias, sementes de leguminosas ou em animais usados como biorreatores.
 • Aumento do potencial nutricional dos alimentos- A engenharia genética tem se preocupado com a questão da desnutrição no planeta. Dessa forma, tem modificado plantas para produzirem uma maior concentração de vitaminas (A, C e E) e aminoácidos essenciais, da mesma forma que retira fatores como o myo-inosito hexakisfosfato que retira importantes elementos para a nutrição como o cálcio, ferro e fósforo.
• Alta resistência as pragas- As pesquisas tem mostrado uma evolução significativa nesse campo. As principais estratégias buscam a produção de proteínas hidrolíticas, proteínas dos patógenos, proteínas antimicrobianas, cuja finalidade é aumentar a resistência de animais e vegetais (banana, soja e alface) à ação de pragas que infestam as lavouras e os animais de corte.
Redução do uso de agrotóxicos- O Brasil está entre os três maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. A medida que se produz plantas mais resistentes a ação de pragas como insetos, formigas, fungos e vírus, ocorre uma redução natural na utilização de agrotóxicos para fazer a defesa da lavoura.
 • Síntese de plásticos e outros materiais- já se discute a possibilidade de se produzir plásticos biodegradáveis a partir de polímeros de soja e fibra de cana-de-açúcar, tendo a participação de bactérias geneticamente modificadas.
malefícios- dentre os principais riscos mais contundentes promovidos pelos OGMs detacam-se:
 • A geração de novas pragas e plantas daninhas- a modificação das plantas poderá levar ao surgimento de novas pragas uma vez que a nova planta passará a produzir substâncias nutritivas diferentes que levarão ao aparecimento de novos parasitas antes não existentes. Do mesmo modo, determinados genes podem passar através do pólen de uma transgênica para uma filogeneticamente relacionada, resultado numa espécie nociva ao meio ambiente. Um caso já conhecido ocorreu em 1996, quando os escoceses constataram que o pólen da uma variedade de canola transgênica poderia ser achado em um raio de dois quilômetros. A canola (Brasica napus) é parente de uma erva daninha, a Brasica campestris, e as duas espécies cruzam com certa facilidade.
• Danos a espécies não-alvos- através do transporte do pólen pelo vento, água, insetos, aves, poderá ocorrer a contaminação de plantações não transgênicas (nativas) com os genes das modificadas, levando a uma chamada poluição genética. No México, DNAs do milho transgênico foi encontrado nas plantações, mesmo com a proibição desses produtos no país de origem desse cereal.
• Alteração da dinâmica dos ecossistemas- a introdução de uma nova espécie em um meio e as monoculturas podem levar ao desaparecimento de outras espécies da cadeia alimentar que utilizavam o meio natural para a alimentação e reprodução.
 • Produção de substâncias tóxicas- isto pode ocorrer após a degradação incompleta de produtos químicos perigosos codificados pelos genes modificados.
 • Perda da biodiversidade- a manipulação de genes poderá propiciar o aparecimento de novas espécies melhores adaptadas ao meio ambiente. Isto poderá levar ao desaparecimento de espécies mais frágeis em relação à adaptação ao meio ambiente, através de uma seleção “natural”.










REFERENCIAS

ALVES, G. S.. A BIOTECNOLOGIA DOS TRANSGÊNICOS: PRECAUÇÃO É A PALAVRA DE ORDEM; HOLOS, Ano 20, outubro/2004.
Rodrigo Legrazie de Farias – BIOTECNOLOGIA E O DESAFIO DA SUSTENTABILIDADE NA PRODUÇÃO AGRÍCOLA Revista Complexus Faculdade de Engenharia e Arquitetura – CEUNSP, SALTO/SP, ano. 02, n. 4, p. 1-24, setembro de 2011. disponível em: www.engenho

quinta-feira, 19 de março de 2015

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Comunidade e Cultura Surda do Brasil
     As comunidades surdas estão espalhadas pelo país, e como o Brasil é muito grande e diversificado, as pessoas possuem diferenças regionais em relação a hábitos alimentares, vestuários e situação socioeconômica, entre outras. Estes fatores geraram também algumas variações lingüísticas regionais.
     As escolas de surdos, de surdos, mesmo sem uma proposta bilíngüe (língua portuguesa e língua de sinais), propiciam o encontro do surdo com outro surdo, favorecendo que as crianças, jovens e adultos possam adquirir e usar a LIBRAS. Em muitas escolas de surdos há vários professores que já sabem ou estão aprendendo com “professores surdos” a língua de sinais, além de oferecer cursos também para os pais destas crianças.

Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de se torná-lo acessível e habitável ajustando-os com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das “almas” das comunidades surdas. Isto significa que abrange a língua, as idéias, as crenças, os costumes e os hábitos de povo surdo. Descreve a pesquisadora surda:
[...] As identidades surdas são construídas dentro das representações possíveis da cultura surda, elas moldam-se de acordo com maior ou menor receptividade cultural assumida pelo sujeito. E dentro dessa receptividade cultural, também surge aquela luta política ou consciência oposicional pela qual o individuo representa a si mesmo, se defende da homogeneização, dos aspectos que o tornam corpo menos habitável, da sensação de invalidez, de inclusão entre os deficientes, de menos valia social.(PERLIN, 2004, p. 77-78)
Fonte: STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis. Editora UFSC. 2008. (p.24)

Continuando com os mesmos autores, Padden e Humphires (2000, p. n5) estabeleceram uma diferença entre cultura e comunidade:
[...] uma cultura é um conjunto de comportamentos apreendidos de um grupo de pessoas que possuem sua própria língua, valores, regras de comportamento e tradições; uma comunidade é um sistema social geral, no qual um grupo de pessoas vivem juntas, compartilham metas comuns e partilham certas responsabilidades umas com as outras.
Fonte: STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis. Editora UFSC. 2008. (p.30-31)

Então entendermos que a comunidade surda de fato não é só de sujeitos surdos, há também sujeitos ouvintes – membros de família, intérpretes, professores, amigos e outros – que participam em compartilham os mesmos interesses em comuns em uma determinada localização.
Fonte: STROBEL, Karin. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis. Editora UFSC. 2008. (p.31)


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Ministro faz Raio-X da educação básica no Brasil

O Ministro da Educação, Henrique Paim, publicou artigo nesta terça-feira (11), no jornal Folha de S. Paulo, intitulado Raio-X da educação básica. Confira a íntegra:
Mudar o processo educacional brasileiro exige grande esforço, ainda mais em um País que teve um despertar tardio para a importância da educação em seu desenvolvimento.
O esforço é conjunto, pois, na educação básica, o sistema funciona em regime de colaboração entre a União, Estados, Distrito Federal e municípios. Cada Estado e cada município tem autonomia de seu sistema de ensino, cabendo à União estabelecer diretrizes e apoiar técnica e financeiramente os entes federados na cruzada pela educação com mais acesso, garantindo ao estudante uma trajetória regular e de qualidade.
Em outra dimensão, o esforço é conjunto porque envolve uma gama de atores: professores, gestores, os demais profissionais de educação, as famílias, os estudantes e a sociedade. Sabemos que as políticas públicas educacionais surtem efeito em médio e longo prazo. O investimento na construção de escolas de educação infantil trará retorno para o Brasil daqui a 20 anos. Isso porque uma criança que tem acesso a essa escola terá mais chance de concluir a educação básica na idade própria e de se tornar um profissional mais qualificado.
Por isso devemos enxergar os dados do Censo da Educação Básica de 2013 com dois olhares. O primeiro é o de que ainda temos muitos desafios pela frente. O segundo, o de que devemos destacar os bons resultados dos esforços conjuntos. Eles mostram que a educação básica no país avançou.
O crescimento de 7,5% nas matrículas das creches está associado a uma política de financiamento, por meio do Fundeb, e de investimento em infraestrutura para receber esse público. O governo federal tem como meta contratar a construção de 6.000 creches até o final deste mandato da presidenta Dilma, e o que foi feito até agora já permitiu que o atendimento aumentasse 73% de 2007 para 2013.
No ensino fundamental, a redução de matrículas significa que o fluxo escolar melhorou. Outra boa notícia é a ampliação da educação em tempo integral. De 2010 para 2013, houve um crescimento de 139%, com o número de matriculados saltando de 1,3 milhão para 3,1 milhões. Só no ano passado, esse aumento foi de 45%. É importante ressaltar que, dos 3,1 milhões de matrículas, 3,07 milhões foram na rede pública. O MEC (Ministério da Educação) tem repassado, em média, R$ 2 bilhões por ano para a ampliação da jornada escolar.
A partir do programa Mais Educação-Educação em Tempo Integral, que se revelou uma estratégia bem-sucedida do MEC para a implantação da jornada integral nas redes públicas, podemos acreditar que é factível a meta do Plano Nacional de Educação – que espera aprovação no Congresso Nacional – de termos 25% dos alunos em tempo integral nos próximos dez anos.
Na educação profissional, saímos de 780 mil matrículas em 2007 para 1,44 milhão em 2013, um crescimento de 85%. Para isso, diversas políticas e ações foram determinantes. A expansão das redes federal e estaduais de educação profissional, científica e tecnológica foi uma delas. Outra foi o Pronatec, prioridade do governo da presidenta Dilma, que chegará ao fim deste ano com 8 milhões de matrículas, sendo 2,4 milhões no ensino técnico.
Após a inclusão recente de milhões de estudantes, o ensino médio tem hoje novos desafios. O aperfeiçoamento do currículo e a formação de professores são pontos que já estamos enfrentando. O avanço passa também pela possibilidade de profissionalização, oferecendo aos jovens, além da escolarização, qualificação para o trabalho.
O Censo mostra que as políticas públicas estão dando resultados, mas nos desafia a avançar na busca da melhoria da qualidade da educação para garantir o desenvolvimento sustentável do País.
O ensino médio e seus caminhos

Programas governamentais miram a integração entre a educação profissional e o ensino médio tradicional e a flexibilização do currículo, com a introdução de disciplinas optativas para que alunos possam construir seu percurso de aprendizado


Filipe Jahn

Um dos principais dilemas da educação contemporânea é aquele que gira em torno da permanência dos alunos do ciclo médio nos bancos escolares. Atraídos pelo número de estímulos e pela velocidade da sociedade, a escola lhes parece enfadonha. No entanto, muito do que lhes parece fora de propósito nessa fase - experiências, relações, conhecimentos - só irá adquirir sentido ao longo do tempo. Muitas vezes acaba por não fazer, por diversos motivos, entre eles o abandono da escola. 

Todo esse clima de desinteresse dos adolescentes pela vida escolar tem gerado muitas reflexões mundo afora sobre os possíveis caminhos de fazer com que o ensino médio seja vivido e percebido como significativo. Nessa perspectiva, o desafio dos sistemas de ensino nos últimos anos envolve a capacidade de organizar um programa curricular que consiga, ao mesmo tempo, formar os jovens para continuar os estudos no ensino superior e prepará-los para o mercado de trabalho. Ou seja, fazer com que se escolarizem o mais possível, o que muitas vezes obscurece outros sentidos da educação. 

No Brasil, o cenário segue roteiro parecido. As novas proposições do governo federal para o ensino médio têm o objetivo de elevar o índice de conclusão do ensino médio regular para o patamar de países mais desenvolvidos. "Para esses países, a permanência do aluno em sala de aula nessa etapa deixou de ser um desafio há alguns anos. Hoje existe uma forte pressão socioeconômica, e muitos daqueles que saem não têm a menor chance profissional na vida", avalia Cândido Gomes, consultor da Unesco e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB-DF).

Evidência disso é o índice de jovens de 18 a 24 anos que completaram o segundo ciclo do 2º grau, que equivale ao nosso ensino médio. Conforme o Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), a média de conclusão nessa faixa etária entre os 27 membros é de 79%. Nos Estados Unidos, chega a 89%. No Brasil, conforme a Síntese dos Indicadores Sociais divulgada pelo IBGE em 2010, somente 37% dos jovens de 18 a 24 anos já completaram a etapa. Segundo pesquisa recente divulgada pelo Instituto Unibanco junto à rede estadual paulista, de cada 100 alunos que terminam o ensino fundamental com a idade correta, 83 vão para o ensino médio. Destes, apenas 47 terminam o médio em três anos. Considerando a evasão do início do fundamental ao final do médio, de cada 100 estudantes que entram saem 23 no período correto.

Para aumentar esses índices de conclusão, o MEC aposta na ampliação da educação profissional, ainda pouco expressiva no Brasil. No âmbito do ensino secundário, ela responde por apenas 14% das matrículas, contra 77% da Áustria, 58% da Alemanha, 44% da França, 42% da China e 37% do Chile.



Fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Artigo sobre célula-tronco reacende polêmica sobre clonagem humana

O artigo desta quarta-feira (15) da revista "Cell", mostrando uma técnica para criar células-tronco embrionárias por meio de clonagem, já foi publicado sob polêmica, por mostrar um caminho que, em teoria, possibilita criar clones humanos. Os autores fizeram o mesmo procedimento já usado para clonagem de animais, mas alteraram alguns passos.
Um grupo britânico chamado Human Genetics Alert protestou contra a pesquisa. "Os cientistas, finalmente, entregaram o bebê que pretensos clonadores humanos têm estado à espera: um método confiável para criar embriões humanos clonados", disse David King, diretor do grupo, à Reuters. "Isso torna imperativo que nós criemos uma proibição legal internacional sobre a clonagem humana, antes que mais pesquisas como essa apareçam. É irresponsável ao extremo a publicação desta pesquisa."
A pesquisadora brasileira Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo (USP), confirma que a equipe de Shoukhrat Mitalipov de fato trouxe a público um novo caminho que poderia viabilizar a clonagem humana, mas ressaltou que o propósito dos cientistas é que se possam aproveitar as possibilidades terapêuticas das células-tronco, não permitir que elas se tornem novas pessoas.
As células-tronco embrionárias são as únicas capazes de se especializar em todo tipo de células do corpo e de se multiplicar sem limite, tendo assim um enorme potencial terapêutico. Essas células são especialmente promissoras para o tratamento de doenças como o mal de Parkinson, a esclerose múltipla, doenças do coração e lesões na medula espinhal.
Intenção
“Ele ajudou a vida de quem quer fazer um clone, mas é claro que não é sua intenção”, diz a cientista, que enfatizou o feito do autor e sua equipe. “Eles conseguiram, mudando o meio de cultura, fazer embriões clonados com uma grande eficiência. Sempre imaginei que precisariam de centenas de óvulos. Foi com um número de óvulos relativamente pequeno”, explicou. Para a pesquisadora, a questão de um eventual mau uso da clonagem deve ser tratada por meio de mecanismos de controle e legislações que punam quem cometer desvios.
O site da revista “Nature” entrevistou Masahito Tachibana, pesquisador japonês que trabalha há cinco anos no laboratório de Mitalipo, e ele afirmou que em breve será publicado um novo texto explicando porque a clonagem de um ser humano não é possível com a técnica apresentada nesta quarta.
Outra questão ética envolvida é o descarte de embriões. Historicamente, o embrião é o resultado da fecundação de um óvulo por um espermatozoide. Como no caso dessa nova pesquisa, o DNA de uma célula já adulta é transferida para um óvulo, não há de fato uma fecundação no sentido clássico. No entanto, como alerta a professora Lygia, com a criação de células-tronco a partir de células já adultas, a definição de embrião fica em cheque.
A transferência de núcleo apresentada por Mitalipov e sua equipe é uma técnica complicada de uma linha de pesquisa que já vinha perdendo força. No ano passado, o Nobel de Medicina foi para trabalhos que mostram que células adultas podem ser "reprogramadas" para se tornar imaturas e pluripotentes (IPS), ou seja, capazes de se especializar em qualquer órgão ou tecido corporal, manipulando-se apenas quatro genes. Essa é, há quase uma década, a principal aposta da comunidade científica, em detrimento dessa reprogramação por meio de clonagem.
Segundo Lygia da Veiga Pereiram, Mitalipov viabilizou uma técnica de “caixa-preta”, pois conseguiu a criação da célula-tronco sem que se saiba exatamente como acontece a reprogramação dentro do óvulo, ao contrário do caminho premiado com o Nobel de 2012, liderado pelo japonês Shinya Yamanaka, que é muito mais simples e já vem sendo aplicado, inclusive no Brasil.
Ainda assim, ela considera o trabalho publicado pela “Cell” importante: “Será que essas células são mais interessantes que as IPS? Será que essa técnica não pode ser usada em fertilização in vitro normal? Que pode ajudar casais a terem filhos?” São perguntas que ficam, por enquanto, em aberto.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013